Póstumo (Part. I)
Um tiro abrirá
a têmpora do tempo.
Brinco de adivinhar o futuro
na intenção de ser póstumo.
Ouço por trás do muro
o mesmo, e sempre discurso
sobre o que não me convence.
Quem é essa voz
que acolhe agora à distância,
os ouvidos da minha infância?
Passaporte vencido.
Viajo no bagageiro,
convencido da clandestinidade.
Se resolvo revolver a terra
que guarda a semente do que sou,
é porque tenho esperança
de nascer noutro lugar.
Abstrair aprisiona e liberta.
A faca da escrita rasga a barriga
da baleia que me conduz.
Póstumo (Part. II)
Estive em tantas luas
e em tantas lutas para proteger
o universo,
que cansei de olhar estrelas.
O brilho que me cega
vem do que me espelha.
Abnegado, retardei confronto
e agora me defronto com o que sou.
Serei capaz de me dividir
e resultar inteiro?
Guardo do cásulo lembranças do futuro
e agora não sei o que fazer com elas.
Erramos destinos,
somos distintos na sorte.
Cresci feito erva daninha,
no espaço entre o sim e o não.
Póstumo (Part. III)
Indeterminado,
me determino no que ainda não vejo.
Meu desejo de posteridade
precede o nascimento,
pereço do que ainda não sou
e careço de mais um copo de eternidade.
Nos confins de mim,
no musgo escorregadio
em que floresce minha essência.
Mil Napoleões traçam estratégias
de uma guerra sem fim.
Velarei meu cadáver na esperança
de enterrá-lo antes do entardecer.
…e será tarde para descobrir,
que deveria ter morrido cedo.
Póstumo (Part. IV)
Essa leveza pecaminosa,
esse abandonar o corpo,
esse flutuar na alma.
É preciso ser forte
para desvincular culpa
e aceitar a sorte ou a morte.
Se morrer é isso,
várias mortes vivi!
Póstumo (Part. V)
As coisas gritam lá fora,
os carros aceleram... O burburinho
de vozes... A pressa expressa.
Na vida engarrafada
a alma desossada...
Nada além dos motores das máquinas,
nada além da fumaça sobre a cidade.
Perambulamos pelas vielas de concreto
com nossos discretos olhares domesticados.
Apodreceremos em pé
à espera de um novo tempo
que viaja em tardes lentas
montado no cavalo da esperança.
Póstumo (Part. VI)
Esse vazio nos olhos e na alma,
esse esperar de barco atracado no cais.
Essa lentidão tingindo os dias
de um amarelo sem graça
em todos os contornos,
em tudo em torno.
Nada me satisfaz, não há limite
que dê limite o desespero dos meus ais.
Uns vão, outros vem.
E não se ouvem e não se veêm.
Mundo fútil, vida fútil!
Vida fácil
sob o sol dos insensíveis,
patéticos,
espantalhos de lavoura.
Não espantarão a tempestade,
não amenizarão a irá deste céu chumbo,
não serão mais que alegorias
ante a fúria do tempo.
Póstumo (Part. VII)
Quero mais do que posso viver,
quero ir além do que posso ver.
Velai por mim, oh Deus dos insensatos,
cuidai de mim…
Perdoai em mim toda desregrada lúcidez,
perdoai o olhar faminto
com que devoro horizontes, perdoai!
Perdoai, oh Deus dos incautos,
toda impaciência contra a redondice
das coisas que voltam sempre
ao mesmo lugar.
Agasalhai-me, oh Deus dos aflitos,
do frio que faz no pico deste iceberg.
Que o calor das minhas incertezas,
não derreta o chão de gelo sob meus pés.
Que eu não veja no esplendor deste acaso,
o negrume destonante que avança
desmatizando toda paisagem.
Salvai-me, oh Deus,
desta dialética perversa,
que aguça todos os sentidos meus.
Guardai-me, oh Deus da hermética.
Póstumo (Part. VIII)
Distanciado assim de mim,
forasteiro na vida que me suporta.
Postulo a viver póstumo.
Erijo pois um outro
como negação da negação,
viver é negar a morte.
Esse outro... Esse valente outro,
capaz de suplantar a vida.
E dar-me em vida outra vida.
Levanta-se do porão da existência,
como sol quarando a manhã de um novo dia.
Póstumo (Part. IX)
Todos caminhos conhecem meus passos.
Nada me surpreende nesta vida casta,
já não me abrigam as paredes desta casa.
O que sou agora se não
essa brisa no rosto,
esse gosto de nuvens na boca,
essa voz rouca a ecoar na imensidão.
E quanto mais alto vou
no meu vôo.
No meu desejo de céu,
mais nitidamente me vejo.
Póstumo (Part. X)
Da mais profunda floresta de algas,
vem essa algazarra que agita a superfície.
Sobrevivo a violência da maré
como marisco incrustado na pedra.
Quem de vós socorrereis o corpo dissecado,
a alma exposta na calçada, quem de vós?
Quem de vós ouvireis meu canto?
Vegetaremos
pau e pedra, pó e lixo
nos escombros da vida,
como garrafas pet vazias
flutuando na Guanabára.
Eu e eu,
nós
em
mim
abraçados
numa solidão
sem
f
i
m
.
Póstumo (Part. XI)
Fui aquele que catalisou
o que em outros cristalizou.
Houve em mim um nicho
de intenções subcutâneas.
O que aflorava
palavras/versos
já me devorava há tempos.
Minha fotografia
foi um desenho mutante,
houve sempre o risco
de esquecer o último rosto.
Não me leu,
quem me viu.
Morei dentro
do olho do poema.
Fui tinta
tela e tema.
Autor: Paulo Ednilson
Autor: Paulo Ednilson


















































