sexta-feira, 1 de julho de 2011

Cemitério exótico de famílias mafiosas vira atração na Ucrânia.

No lugar das tradicionais sepulturas com pequenas mensagens, informações sobre o morto e uma simples foto, surgiu uma espécie de competição póstuma.

Uma cidade no interior da Ucrânia ganhou fama por causa do cemitério. Os enviados especiais Marcos Losekann e Sérgio Gilz contam o motivo dessa atração tão diferente.



Parece uma exposição de arte. Obras perfeitas, tudo nos mínimos detalhes. Mas isso é um cemitério, o maior de Dnepropetrovsk no interior da Ucrânia, cidade que durante quase duas décadas foi considerada a capital da máfia ucraniana, uma organização criminosa que surgiu no fim dos anos 80, quando a União Soviética entrou em colapso.

Não demorou para que o cemitério de Dnepropetrovsk começasse a mudar seu perfil. No lugar das tradicionais sepulturas com pequenas mensagens, informações sobre o morto e uma simples foto, surgiu uma espécie de competição póstuma. Cada túmulo maior, mais enfeitado, e mais caro do que o outro.

A máfia ucraniana era dividida em vários grupos que travaram uma sangrenta guerra por poder e território. As famílias não faziam nenhuma questão de esconder a atividade dos parentes mortos. Numa lápide, por exemplo, está escrito pra quem quiser ver: Máfia. Um monumento como esse em tamanho natural, chega a custar o equivalente a R$ 400 mil reais.

Uma empresária, dona de uma fábrica de túmulos, conta que durante o reinado dos mafiosos o número de encomendas chegava a três por dia.

A técnica - que consiste no uso de raio laser pra marcar o mármore um milímetro abaixo da superfície da pedra - só é praticada por poucos especialistas. Uma lápide como esta chega a levar seis semanas para ficar pronta.

Agora que a máfia na cidade praticamente foi dizimada, o negócio sobrevive graças ao interesse esporádico de algumas famílias abastadas. Em Dnepropetrovsk, elas viraram atração turística.

Curiosidade: Segundo a telespectadora russa Ekaterina Navarro que reside no Brasil a quatro anos, uma informação contida na reportagem é divergente.
Ela explica: "-O repórter Marcos Losekann peca na apresentação de uma lápide ao dizer - Está escrito para quem quiser ver: Máfia - Na realidade a palavra em evidência se trata do sobrenome do falecido e nada tem em comum a não ser talvez a pronúncia das palavras." 
A mesma defende seu ponto de vista a respeito do equívoco comparando a gramática dos dizeres: "-Na sepultura encontra-se entalhado a palavra (Мармура - Mármore) ao invés de (мафiя - Máfia.)"

Fonte: Jornal Floripa

sábado, 21 de maio de 2011

Visita ao Père-Lachaise

_______________________________________________________
É com sincera satisfação que venho por meio desta publicação divulgar a experiência descritiva de uma colega que compartilha dos mesmos interesses que o meu.
Se não bastasse o texto disponibilizado e a disciplina característica de cada estrofe que o torna ainda mais interessante, as imagens contidas na edição são de posse e arquivo pessoal, que vão além de figuras ilustrativas e servem como um elo entre o leitor e a autora de sua criação.

Aos que até esta página chegaram, fica minha gratidão e o desejo de uma boa leitura por meio desta divulgação.
_______________________________________________________


Por Andréia de Souza Martins
Mestranda em Antropologia pela UFPB
Jornalista - DRT 2998/PB
Fotos: Andréia S. Martins / Edições: Paulo Roberto

Ao contrário daqueles que o admiram por abrigar pessoas famosas, eu soube do cemitério Père-Lachaise por maneiras pouco convencionais: descobri que é o primeiro cemitério a oferecer um passeio virtual indicando, num mapa, onde estão esses túmulos, oferecendo a visualização de fotos e uma breve biografia do falecido. Eu já pesquisava sobre a morte na internet desde 2008 e redigi a monografia para conclusão do curso de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo (pela Universidade Federal da Paraíba - UFPB) em 2009. Falei sobre o caso Eloá e a espetacularização da morte na televisão e na internet, através da comunidade Perfil de Gente Morta, no Orkut. Após a conclusão do trabalho (disponível aqui), continuei a pesquisar e encontrei os velórios virtuais. Deles para o passeio virtual no Père-Lachaise foi um pulo. Ou melhor, um clique.
Então, em junho/julho de 2010, tive a oportunidade de visitar a Europa pela primeira vez. Passei seis dias na França e, desde a organização dos passeios, fiz questão de colocar o Père-Lachaise na rota. Quem anda com estudiosos da morte inevitavelmente vai fazer uma excursão destas.
No dia anterior ao combinado para a visita, estivemos na Conciergerie, antiga prisão francesa que abrigou Maria Antonieta antes de sua execução (e que protege seu túmulo até hoje). Lá, encontrei um livro maravilhoso da jornalista Anne-Marie Minvielle, "Guide des curiosités funéraires à Paris – Cimetières, églises et lieux de mémoire" (Guia das curiosidades funerárias de Paris – Cemitérios, igrejas e lugares de memória). Este guia me foi de extrema ajuda quando chegamos ao Père-Lachaise que, embora tenha um mapa (comprado por 1€, no portão), não se aprofunda muito na história dos seus moradores.
Entramos pelo portão da Praça Auguste Métivier, saindo da estação de metrô com o mesmo nome do cemitério, que possui 43,2 hectares e foi criado em 1804. 


Entrada principal ao Père-Lachaise.

Atualmente, possui 97 divisões, com partes israelitas e muçulmanas, além do crematório e do columbário, onde são guardadas as cinzas. É o espaço mais arborizado de Paris, com mais de 5 mil árvores. Estima-se que lá estejam enterrados mais de um milhão de pessoas.


Corredores arborizados abrem caminho entre os mausoléus.

Sua inauguração foi uma jogada de marketing: para chamar a atenção dos possíveis proprietários, os restos mortais de La Fontaine & Molière e Abelard & Heloïse (professor e aluna que se envolveram num romance proibido durante a Idade Média. A história está no filme "Em Nome De Deus") foram transferidos para lá.


Túmulos de La Fontaine & Molière.

Mausoléu de Abelard & Heloïse.

Munidos do mapa, marcamos quais os túmulos que queríamos ver e fomos andando. É grande o número de visitantes, mas não o suficiente para deixar o local cheio. De fato, estivemos completamente sozinhos por boa parte da caminhada. Às vezes, eu me sentia estranhamente observada, mas sempre com uma sensação boa. Não tive medo, mas me senti estranha algumas vezes. Tive uma das melhores sensações ao contemplar o pequeno espaço intitulado "Jardin Du Souvenir" (Jardim Da Lembrança), extremamente simples e de mensagem tão tocante. 


Visão ampla do Jardin Du Souvenir.

Introspecção junto ao Jardin Du Souvenir. 

Foi emocionante ver de perto os túmulos de grandes ídolos meus, como Edith Piaf, Jim Morrison, Oscar Wilde, Amedeo Modigliani, Georges Bizet, Frédéric Chopin, Allan Kardec e outros. 


Túmulo de Edith Piaf.

Túmulo de Jim Morrison.

Mausoléu de Oscar Wilde.

Túmulo de Amedeo Modigliani.

Túmulo de Georges Bizet.

Túmulo de Frédéric Chopin.

Túmulo de Allan Kardec.

Dos que eu não conhecia, fiquei impressionada com os do jornalista Victor Noir (que o retrata caído no chão, no momento em que foi baleado, em 1870), François Raspail (prisioneiro durante a 3ª república francesa, tem a escultura de sua viúva o aguardando do lado de fora) e Georges Rodenbach (que está saindo de seu túmulo com uma flor na mão).


Sepultura de Victor Noir.

Sepultura de François Raspail.

Sepultura de Georges Rodenbach.

São muitas as homenagens aos mortos na segunda guerra mundial. O constante pedido para que não nos esqueçamos do que se passou reforça a idéia de respeito à memória e à história, coisa que me tocou bastante.


Uma das muitas inscrições que podem ser lidas e apreciadas na necrópole.

A atmosfera do lugar é de calma e serenidade. Infelizmente, é grande demais para ser visitado uma única vez, e tínhamos que ir para o Museu do Louvre. Mas, é claro, continuarei a visitá-lo quando for novamente à Paris, assim como os outros cemitérios da cidade e as catacumbas, que não tive tempo de conhecer. A gente pode respirar e tocar a história nestes lugares, além de refletir sobre a morte e nossa própria finitude.


Confira a seguir mais algumas imagens que bem representam a experiência lúgubre de Paris:


Imagem que bem representa os sentimentos de uma Carpideira.

Sepultura de Honoré De Balzac.

Mausoléu de Gioachino Rossini.

Túmulo de Eugène Delacroix.

Túmulo de Pierre Bourdieu.

Túmulo de Henri Salvador.

Túmulo de Marcel Proust.

Local reservado á Comuna francesa.

Visão geral das catacumbas.

Deterioração.  

Fonte: Andréia de Souza Martins


Contatos: (83) 3221-3014 / (83) 3222-5030 / (83) 9104-4140

Twiter: @FundacaoMMAlves / @AndreiaSMartins

_______________________________________________________
Resenha de mesma autoria e parceria de Andréia S. Martins.
_______________________________________________________

Minúcias Da Morte - Resenha Crítica Do Filme "A Partida"




Minutiae Of Death:
Critical Review Of The Movie "A Partida"

Título: A Partida.
Título Original: Okuribito.
Elenco: Masahiro Motoki, Tsutomu Yamazaki, Ryoko Hirosue, Kazuko Yoshyuki, Kimiko Yo, Takashi Sasano.
Direção: Yojiro Takita.
Gênero: Drama.
Duração: 130 min.
Distribuidora: Paris Filmes.
Estreia: 05 de Junho de 2009.



Todo trabalho relacionado à morte e suas representações é visto, no mínimo, como uma atividade inferior ou indigna por toda a sociedade. É a partir desta idéia que trabalharemos, nesta resenha crítica, os assuntos abordados pelo filme "A Partida", de Yojiro Takita, vencedor do Oscar 2009 de Melhor Filme Estrangeiro. O filme conta a história de Daigo Kobayashi, um jovem violoncelista que retorna de Tóquio para a sua cidade natal, no interior do Japão. Lá, começa a trabalhar como agente responsável pelo Noukan - o ritual de acondicionamento de corpos japonês. Nossa análise será focada no caráter comunicacional que esse ritual estabelece entre os que estão partindo e os seus familiares, evidenciando os preconceitos enfrentados por esses profissionais, em diversos momentos, na narrativa fílmica. Deixaremos as análises estéticas de lado e nos preocuparemos em trazer a ritualística cultural da morte para mais perto de nós.
"Agora percebo como minha vida foi inexpressiva até hoje". Com essa frase, somos apresentados ao músico Daigo Kobayashi e introduzidos ao mundo dos rituais funerários com a preparação do corpo de Tomeo, uma jovem hermafrodita que cometera suicídio. O ritual de "Acondicionamento",como é chamado, garante uma partida pacífica do falecido. Em seguida, com um flashback, somos transportados à Tóquio para conhecer a vida de Daigo dois meses antes. Com a dissolução da Orquestra Filarmônica onde trabalhava e sem perspectivas de continuar a viver da música, surge a idéia de retornar para sua cidade natal, Yamagata. Sua esposa, Mika, é favorável à mudança e o casal vai morar na casa em que Daigo cresceu, onde sua mãe morreu e onde seu pai, que os abandonou quando ele ainda era criança, possuía um bar. Procurando ofertas de emprego no jornal local, ele se depara com o anúncio da empresa NK Agent - Ajudando a partir, que ele pensa ser uma agência de viagens. 
Assim, conhecemos a figura enigmática do Sr. Ikuei Sasaki, o chefe e sua secretária, Yuriko Kamimura. Ele explica que o “ajudando a partir”, na verdade, por um erro de digitação, é “ajudando os que partiram” e que a NK Agent é uma agência especializada em acondicionar os corpos dos mortos antes da cremação ou do enterro. NK vem de Noukan, que, literalmente, significa "pôr no caixão". Daigo fica espantado com o trabalho, mas o aceita, e começa a conhecer as etapas e, principalmente, as dificuldades do ramo. 
Concomitantemente ao avanço de Daigo nas tarefas do trabalho, vamos conhecendo também outros personagens da cidade de Yamagata, como a proprietária da Casa de Banhos Tsurunoyu, a Sra. Tsuyako, e seu filho, Yamashita, que insiste em vender o imóvel para a construção de um prédio de apartamentos. Conhecemos também o grande amigo da Sra.Tsuyako, o Sr. Shokichi Hirata, cliente da casa de banhos há décadas. Mas, mesmo assim, Daigo ainda demora a se acostumar ao trabalho; neste ponto, começamos a conhecer melhor sua estreita relação com a música, quando ele volta a tocar o seu violoncelo de criança, e percebemos o quanto bloqueou lembranças do pai, ao ponto de sequer lembrar o seu rosto. Depois de diversos trabalhos como assistente do Sr. Sasaki, Daigo já tem autonomia para realizar o ritual do Noukan sozinho. É quando a opinião pública aparece: Yamashita, filho da dona da casa de banhos, o encontra na rua e tem vergonha dele. Impede, inclusive, que sua mulher e filha o conheçam melhor e pede que ele arrume "um trabalho decente". 
Em casa, Mika descobre o verdadeiro trabalho do marido e também sente vergonha, pois ainda pensava que ele trabalhava para uma agência de viagens. Ela pede que ele arrume "um trabalho normal" e que deixe este, mas Daigo se recusa e ela diz que vai voltar a morar com os pais até que ele peça demissão. Tem nojo de seu toque quando ele tenta segurá-la. Em seguida, Daigo é comparado a um fracassado durante o acomodamento de um corpo e resolve pedir demissão. Assim, ele acaba conhecendo melhor o Sr. Sasaki, seu chefe, que lhe conta como entrou no ramo funerário. 
Voltamos ao início do filme, ao acondicionamento do corpo de Tomeo. Daigo continua só e se dedica cada vez mais ao trabalho. O tempo passa, diversas cerimônias de acondicionamento são mostradas. É aí que Mika volta, grávida e, ao mesmo tempo, a dona da casa de banhos, Sra. Tsuyako, morre. Daigo é chamado para fazer o acondicionamento de seu corpo e Mika o acompanha. Mika e Yamashita, os que mais discriminavam seu trabalho, compreendem sua importância. Isso só aconteceu porque a Sra. Tsuyako era querida por ambos. Assim, nos deparamos com outra pessoa que lida com os mortos: o Sr. Shokichi Hirata, grande amigo de Tsuyako, que é responsável pelos fornos crematórios. 
Mika e Daigo fazem as pazes e ele partilha algumas lembranças de infância ao dar-lhe uma "pedra-carta", da mesma forma que seu pai havia lhe dado quando criança. Ele explica: "os antigos, antes da invenção da escrita, procuravam uma pedra que expressasse seus sentimentos e a davam aos seus entes queridos. Quem recebia a pedra podia ler os sentimentos do outro pelo peso e textura. Uma pedra lisa era sinal de um coração sereno. Uma pedra áspera, que a pessoa estava em dificuldades." Mika recebe uma correspondência avisando da morte de seu sogro, Hideki Kobayashi. De início, Daigo se nega a ir vê-lo, mas acaba indo. Ao perceber a forma desleixada com que os agentes funerários tratam o corpo, decide, ele mesmo, acondicioná-lo. Assim, descobre que seu pai nunca o esquecera e consegue se lembrar, nitidamente, de sua feição. Isso faz com que reconheça a figura de seu pai.

Apreciação Crítica

De forma leve e animada, somos imersos nesse mundo fantástico do trabalho com os mortos. Com atuações bem características dos filmes japoneses - humor físico e expressões faciais bem marcantes - sem perceber, vamos refletindo a respeito da vida e da morte, tema muito caro ao cinema. Este era um resultado esperado para um filme que trata desta temática, mas a forma com que chegamos a esse resultado é que é inusitada. A própria reação de Daigo, quando fica conhecendo o teor do trabalho que terá de desenvolver, é negativa. Ele, como representante da massa que marginaliza e inferioriza o trabalho com os mortos, não poderia agir de outra forma, visto que ainda não conhece, de fato, todas as minúcias que envolvem essa lida. Sentimos também certo receio ao acompanhar seu trabalho com o Sr. Sasaki, mas, aos poucos, com o privilégio onipresente do espectador, vamos conhecendo, com uma enorme riqueza de detalhes, todos os processos envolvidos nessa atividade, como a significação de cada passo do ritual, como por exemplo, a necessidade da limpeza do corpo, significando "o primeiro banho de um novo nascimento", a feitura da barba, da maquilagem, e da pele não ser mostrada a fim de preservar a dignidade do falecido. 
Questões de dignidade e honra são muito caras à sociedade japonesa, o que podemos comprovar ao longo de diversos episódios na História. Um exemplo disso, bem perto do nosso tema, é o suicídio - utilizado tanto para honrar quanto para depreciar. Morin (1976) nos fala da honra no suicídio, identificada nos Kamikazes, como exaltação da pátria, e a depreciativa, aquela que visa desonrar o outro, como no caso dos que cometiam o haraquiri na porta de seus adversários. 
Para nós, é importante destacar o caráter comunicacional presente em todos esses atos: o suicida visa, com sua morte, dizer algo que não pôde dizer em vida - sejam mensagens de honra ou de dor. Os agentes funerários, através de seus atos, na preparação do corpo, transmitem mensagens que são direcionadas tanto para os que morreram quanto para os que ficaram. Para ilustrar essa situação comunicacional especial da morte, devemos nos lembrar das palavras de José Luiz de Souza Maranhão (2008): "não se morre mais como antigamente". Morin (1976) e Ariès (1977) também salientam que, nos séculos XVI e XVII, as pessoas "pressentiam" a chegada de sua hora e podiam, tranquilamente, antes de fechar os olhos em definitivo, organizar seus últimos desejos e preparativos, presidindo uma "cerimônia pública aberta às pessoas da comunidade", onde era imprescindível a presença de familiares e amigos, que assistiam e participavam de tudo: "desse modo se morreu durante séculos" (MARANHÃO, 2008; p.8). Estes pesquisadores defendem que esse tipo de comportamento era possível por conta do ritmo tranqüilo com que se vivia nesses tempos, quando as pessoas podiam prestar mais atenção em sinais importantes de seu próprio corpo e, assim, "sentir" a aproximação de seu fim. 
Toda essa comunicação corporal do indivíduo para o seu ambiente familiar e próximo se esvaiu ou está extremamente escassa em nossa sociedade. O que mais nos chama atenção aqui é a substituição de uma forma de comunicação com o morto por outra. A família sai e entram os serviços especializados, pessoas estranhas ao falecido. Assim, nos lembramos da fala de Yuriko, secretária do Sr. Sasaki, no inicio do filme, sobre o Noukan já ter sido feito pelos familiares dos mortos, antigamente, e ter se terceirizado. Isto reflete a inversão dessa situação comunicacional e, hoje em dia, é ilustrada pela reação de Yamashita e de Mika: as pessoas se distanciaram de tal forma da morte que se esquecem até de que é um acontecimento normal, natural, e passam a temê-la tanto que sentem até nojo das pessoas que estão relacionadas a ela. 
No Brasil, por possuirmos uma cultura de luto e de preparação dos mortos diferente dos orientais, podemos utilizar os coveiros como exemplo desse pensamento inferiorizado: a população tende a taxá-los como pessoas sem preparação, sem estudo, e que só exercem essa profissão porque não tem outra escolha. O mesmo deve acontecer em outros lugares do mundo, pois esse distanciamento é culturalmente desenvolvido desde muito tempo, não é local; podemos até dizer que se trata de uma definição presente no inconsciente coletivo (JUNG, 2006).
Mas, de toda forma, nos é possível, apesar do distanciamento da morte atual, ou do "tabu da morte", conforme definiu José Carlos Rodrigues (2008), enxergar a necessidade deste tipo de ritual em nossa sociedade, mesmo que não seja mais realizado por quem de direito. Se esta etapa fosse pulada, se acabássemos de vez com os rituais de morte e de luto - o que acreditamos impossível - nos seria muito mais complicado superar o rompimento que a morte causa. De toda forma, a comunicação com o morto nunca cessa: acontece em sonhos, em lembranças e em qualquer tipo de objeto ou ação que nos lembre dos que já se foram. Essa comunicação permanecerá. 
A diferença é a forma com que nós a conduziremos, já que a estrutura formal de interação será substituída por uma exclusivamente unilateral. Então, chegamos a duas instâncias de substituição: a primeira, culturalmente transformada pelo afastamento da morte, pela criação do"tabu da morte", definida pela transferência do tratamento dos mortos da família para as casas funerárias já especializadas; e, a segunda, em termos estritamente comunicacionais, da troca da estrutura de relacionamento entre o que fica e aquele se vai - e necessitamos nos prender aqui somente aos fatos científicos, abortando aqueles espirituais, religiosos e supersticiosos - a relação comunicacional se torna unilateral: apenas os vivos lembram-se dos mortos, primeiro com freqüência, depois, somente em datas ou em acontecimentos específicos. 
A forma com que o filme lida com essa substituição em primeira instância (família - funerária), retratando tão bem as dificuldades enfrentadas por esse ramo de atuação tão necessário e, ainda assim, tão descriminado, nos faz esquecer todos esses trâmites e desejar sermos tão delicada e respeitosamente tratados no dia de nossa morte, não importando por quem seja. Amém.

Fonte: Andréia De Souza Martins - Estudante do curso de Comunicação Social: Habilitação em Jornalismo - Universidade Federal da Paraíba.

Segundo a mesma, para contatos diretos é possível se comunicar pelo e-mail: andreiamartins_jp@hotmail.com

terça-feira, 26 de abril de 2011

Manipulação de corpos em rituais funerários iam além dos Andes.


A manipulação de corpos em rituais funerários, utilizando ossos como símbolos para expressar crenças sobre a morte, não se restringia apenas aos povos que habitavam a região dos Andes há 10 mil anos, durante o Holoceno inicial. A prática também era realizada nesse mesmo período por povos localizados nas chamadas "terras baixas" do continente, incluindo o Brasil. Revelam pesquisas realizadas pelo arqueólogo André Menezes Strauss , que cursa doutorado no Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig na Alemanha.

As descobertas dos estudos foram apresentadas em congresso da Associação Norte-Americana de Antropologia Física, realizado de 12 a 16 de abril em Minneapolis nos Estados Unidos.

Durante sua pesquisa de mestrado, realizado no Instituto de Biociências (IB) da Universidade de São Paulo (USP) com Bolsa da FAPESP, Strauss participou da exumação de 26 esqueletos humanos sepultados no sítio arqueológico Lapa do Santo em Minas Gerais, que foi escavado nos últimos dez anos no âmbito do Projeto Temático "Origens e microevolução do homem na América: Uma abordagem paleoantropológica", financiado pela FAPESP e  coordenado pelo professor do IB, Walter Neves.

Ao analisar os esqueletos humanos, datados de 8.500 anos, Strauss percebeu que os ossos apresentavam marcas de corte por instrumentos de pedra, tinham sido expostos ao fogo ou receberam aplicação de ocre (tinta marrom). Além disso, alguns esqueletos tinham membros amputados e foram sepultados de forma desarticulada, juntando os ossos de vários indivíduos, por exemplo.

Intrigado com a descoberta, Strauss e Pedro José Tótora da Glória, doutorando em antropologia física na The Ohio State University, revisitaram as coleções de ossos que foram escavados desde o início do século 19 em outros sítios arqueológicos na região de Lagoa Santa, onde está situada a gruta de Lapa do Santo. Os pesquisadores constataram que os ossos compartilhavam as mesmas características dos encontrados em Lapa do Santo.

“Identificamos um certo grau de sofisticação nos ritos mortuários desses grupos, que eram bastante diversificados, tinham características muito peculiares e uma forte ênfase na manipulação do corpo”, disse Strauss à Agência FAPESP.

Além de ter os ossos cortados e marcados, os esqueletos também foram organizados e dispostos nas sepulturas de acordo com regras muito específicas. O crânio de um adulto, por exemplo, era enterrado com o restante do esqueleto de uma criança, enquanto crânios infantis eram sepultados com os ossos de pessoas maduras.

Em outros casos, os dentes de um indivíduo eram removidos para adornar os restos mortais de outro. “Eles expressavam através da materialidade do osso princípios dicotômicos que deviam fazer parte da cosmologia deles”, analisou Strauss.

De acordo com o pesquisador, não se esperava que as práticas mortuárias dos primeiros habitantes da América do Sul fossem tão elaboradas, como revelaram as pesquisas.

Isso porque na antropologia havia uma ideia de que, pelo caráter nômade dos caçadores-coletores pré-históricos, eles não despenderiam tempo e energia para enterrar mortos. Mas a descoberta das múmias Chinchorros no Chile, no início da década de 1970 e agora dos achados em Lapa do Santo estão colaborando para demover essa ideia.

“Assim como os grupos em Lagoa do Santo, os Chinchorros também eram caçadores-coletores. Ninguém esperava que grupos vivendo há mais de 8 mil anos na costa andina mumificassem seus mortos e que os grupos em Lagoa Santa teriam rituais funerários elaborados”, disse Strauss.

Com base nessas descobertas, segundo o cientista, será possível estabelecer um novo quadro regional para as práticas mortuárias na América do Sul durante o Holoceno inicial, caracterizado não pela simplicidade dos enterros, como se imaginava, mas pela sofisticação dos ritos funerários, como foi comprovado pela manipulação do corpo pelos grupos que habitaram Lagoa do Santo.

“Agora não dá mais para dizer que durante o Holoceno inicial as práticas de manipulação do corpo estavam limitadas aos Andes, mas sim que estavam dispersas por boa parte da América do Sul, incluindo as terras baixas”, afirmou.


Peter Lund

No Instituto Max Planck, Strauss estuda evolução humana e paralelamente à sua pesquisa de doutorado, continua investigando as práticas mortuárias sul-americanas.

Na Europa, o cientista pretende visitar as coleções escavadas pelo naturalista dinamarquês Peter Lund (1801-1880) em Lagoa Santa para tentar encontrar evidências de que elas apresentam as mesmas características dos ossos escavados recentemente no sítio arqueológico mineiro e que passaram despercebidos pelos arqueólogos que já haviam passado por Lapa do Santo. As coleções de Lund estão no Museu de História Natural da Dinamarca.

“Demos muita sorte porque a região de Lagoa Santa tem centenas de cavernas que foram escavadas por equipes de arqueólogos. Lapa do Santo era um sítio arqueológico virgem”, disse Strauss.

Os arqueólogos que escavaram a região mineira anteriormente podem não ter atentado ao fato de que os ossos apresentavam marcas por terem outros objetivos de pesquisa, como a coexistência do homem com a megafauna e morfologia craniana. Além disso, não era possível identificar essas características nos esqueletos com os métodos disponíveis na época.

“Levamos mais de duas semanas para exumar cada sepultamento humano e escavamos apenas cerca de 15% do sítio de Lapa do Santo. A ideia é deixar material disponível para ser escavado no futuro, com novas técnicas”, disse Strauss.

Fonte: Elton Alisson - Agência FAPESP

Resenha: Sobre a morte e o morrer.

Antigamente a morte de crianças era freqüente  e poucas eram as famílias que não tinham perdido um parente.  
A medicina progrediu nas últimas décadas.  A vacinação erradicou muitas doenças,  a quimioterapia e o uso de antibióticos contribuiu para que diminuísse o número de casos de doenças infecciosas. 
Uma educação melhor ocasionou um baixo índice da mortalidade infantil. As várias doenças que disseminaram a população de jovens e adultos foram dominadas. Entretanto cresce o número de idosos, e com isto aumenta o número de vítimas de tumores e doenças crônicas assim como é inegável o aumento considerável dos casos de pacientes com distúrbios psicossomáticos e problemas de comportamento. 
Os médicos cuidam de pacientes mais velhos que procuram não viver somente com suas limitações e habilidades físicas diminuídas, mas, também aprender a enfrentar a solidão e o isolamento em que vivem. O livro "Sobre a morte e o morrer" tenta demonstrar na prática através de relatos de experiências reais as diversas situações em que indivíduos por algum motivo deparam se com a morte, seja ele um moribundo ou um ente que acompanha o estágio final de alguém querido. Além destes relatos o livro faz comentários interessantes aos profissionais de saúde, tratando precisamente de dignidade e como lidar com as diversas situações da morte em si.

Título original: On Death And Dying
© Copyright by Elisabeth Kübler-Ross, 1969
Produção gráfica: Nilton Thomé
Assistente de produção: Carlos Tomio Kurata
Composição: Lúcia Spósito
Revisão: Elvira da Rocha Pinto e Ademilde Lourenço da Silva
Capa: Adelfo M. Suzuki
Foto: Paulo Menezes

Todos os direitos desta edição são reservados à Livraria Martins Fontes Editora LTDA.

Fonte: Site Scribd

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Esqueletos são encontrados nas escavações do túnel Crossrail.

As obras de preparação para a construção do túnel Crossrail – que vai interligar trens intermunicipais e nacionais em Londres – revelaram um sítio arqueológico com centenas de esqueletos em Liverpool Street, no centro de Londres.
No local ficava o cemitério do hospital de St. Bethlehem, inaugurado em 1247 e conhecido como o primeiro hospício do mundo.
O arqueólogo Jay Carver, diz que a expectativa é de que se façam descobertas sobre as causas das mortes das pessoas enterradas ali e por isso, o trabalho de análise e registro é muito importante.
O mapa do antigo hospital indica que milhares de esqueletos podem ter sido enterrados lá. Muitos serão levados para o Museu de Londres, mas todos terão de ser exumados antes da construção do túnel.
As obras já descobriram outros sítios arqueológicos pela cidade. E este é o maior levantamento geológico já realizado em Londres.
Ainda faltam anos para o início da construção do túnel Crossrail, que será a maior obra de infra-estrutura da Europa, mas os trabalhos já começaram com milhões de libras investidas em preparação.



Fonte: BBC-Brasil

sábado, 26 de março de 2011

Poemas Póstumos.

Póstumo (Part. I)


Um tiro abrirá
a têmpora do tempo.

Brinco de adivinhar o futuro
na intenção de ser póstumo.

Ouço por trás do muro
o mesmo, e sempre discurso
sobre o que não me convence.

Quem é essa voz
que acolhe agora à distância,
os ouvidos da minha infância?

Passaporte vencido.
Viajo no bagageiro,
convencido da clandestinidade.

Se resolvo revolver a terra
que guarda a semente do que sou,
é porque tenho esperança
de nascer noutro lugar.

Abstrair aprisiona e liberta.
A faca da escrita rasga a barriga
da baleia que me conduz.


Póstumo (Part. II)


Estive em tantas luas
e em tantas lutas para proteger
o universo,
que cansei de olhar estrelas.
O brilho que me cega
vem do que me espelha.

Abnegado, retardei confronto
e agora me defronto com o que sou.
Serei capaz de me dividir
e resultar inteiro?

Guardo do cásulo lembranças do futuro
e agora não sei o que fazer com elas.

Erramos destinos,
somos distintos na sorte.
Cresci feito erva daninha,
no espaço entre o sim e o não.


Póstumo (Part. III)


Indeterminado,
me determino no que ainda não vejo.
Meu desejo de posteridade
precede o nascimento,
pereço do que ainda não sou
e careço de mais um copo de eternidade.

Nos confins de mim,
no musgo escorregadio
em que floresce minha essência.
Mil Napoleões traçam estratégias
de uma guerra sem fim.

Velarei meu cadáver na esperança
de enterrá-lo antes do entardecer.
…e será tarde para descobrir,
que deveria ter morrido cedo.


Póstumo (Part. IV)


Essa leveza pecaminosa,
esse abandonar o corpo,
esse flutuar na alma.

É preciso ser forte
para desvincular culpa
e aceitar a sorte ou a morte.

Se morrer é isso,
várias mortes vivi!


Póstumo (Part. V)


As coisas gritam lá fora,
os carros aceleram... O burburinho
de vozes... A pressa expressa.
Na vida engarrafada
a alma desossada...

Nada além dos motores das máquinas,
nada além da fumaça sobre a cidade.
Perambulamos pelas vielas de concreto
com nossos discretos olhares domesticados.

Apodreceremos em pé
à espera de um novo tempo
que viaja em tardes lentas
montado no cavalo da esperança.


Póstumo (Part. VI)


Esse vazio nos olhos e na alma,
esse esperar de barco atracado no cais.

Essa lentidão tingindo os dias
de um amarelo sem graça
em todos os contornos,
em tudo em torno.

Nada me satisfaz, não há limite
que dê limite o desespero dos meus ais.

Uns vão, outros vem.
E não se ouvem e não se veêm.

Mundo fútil, vida fútil!
Vida fácil
sob o sol dos insensíveis,
patéticos,
espantalhos de lavoura.

Não espantarão a tempestade,
não amenizarão a irá deste céu chumbo,
não serão mais que alegorias
ante a fúria do tempo.


Póstumo (Part. VII)


Quero mais do que posso viver,
quero ir além do que posso ver.

Velai por mim, oh Deus dos insensatos,
cuidai de mim…
Perdoai em mim toda desregrada lúcidez,
perdoai o olhar faminto
com que devoro horizontes, perdoai!

Perdoai, oh Deus dos incautos,
toda impaciência contra a redondice
das coisas que voltam sempre
ao mesmo lugar.

Agasalhai-me, oh Deus dos aflitos,
do frio que faz no pico deste iceberg.
Que o calor das minhas incertezas,
não derreta o chão de gelo sob meus pés.

Que eu não veja no esplendor deste acaso,
o negrume destonante que avança
desmatizando toda paisagem.

Salvai-me, oh Deus,
desta dialética perversa,
que aguça todos os sentidos meus.
Guardai-me, oh Deus da hermética.


Póstumo (Part. VIII)


Distanciado assim de mim,
forasteiro na vida que me suporta.
Postulo a  viver póstumo.

Erijo pois um outro
como negação da negação,
viver é negar a morte.

Esse outro... Esse valente outro,
capaz de suplantar a vida.

E dar-me em vida outra vida.
Levanta-se do porão da existência,
como sol quarando a manhã de um novo dia.


Póstumo (Part. IX)


Todos caminhos conhecem meus passos.
Nada me surpreende nesta vida casta,
já não me abrigam as paredes desta casa.

O que sou agora se não
essa brisa no rosto,
esse gosto de nuvens na boca,
essa voz rouca a ecoar na imensidão.

E quanto mais alto vou
no meu vôo.
No meu desejo de céu,
mais nitidamente me vejo.


Póstumo (Part. X)


Da mais profunda floresta de algas,
vem essa algazarra que agita a superfície.
Sobrevivo a violência da maré
como marisco incrustado na pedra.

Quem de vós socorrereis o corpo dissecado,
a alma exposta na calçada, quem de vós?
Quem de vós ouvireis meu canto?

Vegetaremos
pau e pedra, pó e lixo
nos escombros da vida,
como garrafas pet vazias
flutuando na Guanabára.

Eu e eu,
nós
em
mim
abraçados
numa solidão
sem
f
i
m

.


Póstumo (Part. XI)


Fui aquele que catalisou
o que em outros cristalizou.

Houve em mim um nicho
de intenções subcutâneas.

O que aflorava
palavras/versos
já me devorava há tempos.

Minha fotografia
foi um desenho mutante,
houve sempre o risco
de esquecer o último rosto.

Não me leu,
quem me viu.

Morei dentro
do olho do poema.

Fui tinta
tela e tema.


Autor: Paulo Ednilson



Fonte: Blogspot (Retratos Da Alma)